Na última segunda-feira (18), Vanda Ortega Witoto, técnica de enfermagem indígena de 33 anos, foi a primeira pessoa a receber a dose inicial da vacina contra a Covid-19 no estado do Amazonas. Ela é moradora do Parque das Tribos, bairro onde vivem indígenas de diversos povos em Manaus, cidade que enfrenta pela segunda vez o colapso no sistema de saúde por conta da pandemia e onde, na última semana, pacientes morreram por falta de oxigênio nos hospitais.
Embora a população indígena esteja contemplada na primeira fase do plano de vacinação contra a Covid-19 do governo federal, não há previsão de quando a comunidade de Vanda, com pelo menos 2 mil pessoas, será imunizada. Isso porque o Ministério da Saúde incluiu no grupo prioritário apenas indígenas que vivem em aldeias, deixando de fora aqueles que moram em cidades, como os habitantes do Parque das Tribos. “Aceitei participar disso [vacinação] justamente porque é um momento histórico que precisa ser refletido para as populações que vivem nas cidades”, afirmou em entrevista à Agência Pública.
Embora emocionada por ter recebido a primeira dose da vacina, Vanda denuncia a situação causada pela Covid-19 no Parque das Tribos, onde o atendimento improvisado aos pacientes é prestado por profissionais de saúde indígenas moradores do bairro. “Estamos montando uma estrutura para atender nossos parentes dentro da comunidade, a partir de doações”, diz a técnica de enfermagem da rede estadual, que desde o primeiro surto da doença trabalha como voluntária cuidando da própria comunidade. Junto às lideranças do bairro, ela criou uma campanha de arrecadação para comprar medicamentos e equipamentos de proteção individual – de acordo com ela, 32 pessoas testaram positivo para o coronavírus no local ao longo das duas últimas semanas.
Qual foi a sensação, enquanto mulher indígena, de ser primeira pessoa vacinada contra a Covid-19 no Amazonas, cuja capital vive um novo colapso do sistema de saúde por conta da pandemia?
Para mim foi muito emocionante, histórico. Os nossos povos, principalmente os que vivem em cidades, são desassistidos pelo poder público. Temos 32 novos casos de Covid na nossa comunidade, perdemos o nosso cacique-geral [em maio do ano passado, Messias Kokama morreu aos 53 anos em decorrência da Covid-19]. Essa vacina, pra gente, representa o fortalecimento das políticas para os povos de contexto urbano, uma luta histórica para nós que estamos nesses territórios, não reconhecidos como indígenas pelo Estado. Para mim, levantar essa questão é muito importante.
Apesar de você ter sido escolhida para receber a primeira vacina contra a Covid-19 em todo o Amazonas, a sua comunidade, por não ser considerada formalmente uma aldeia, não está incluída no grupo prioritário a ser imunizado na primeira fase do plano do governo federal. Como você vê essa situação?
A nossa luta enquanto movimento indígena é para que se garanta vacinação para todos, mas pelo cronograma do Ministério da Saúde, as populações indígenas que vivem em contexto urbano não estão na programação. Minha fala naquele momento foi justamente para chamar atenção para essa questão. Aceitei participar disso justamente porque é um momento histórico que precisa ser refletido para as populações que vivem nas cidades – entendemos que somos indígenas independente de onde estamos. Aceitei como um ato de resistência, um ato político, um ato de luta, como sempre é a nossa vida.
Indígenas em contexto urbano enfrentam um “limbo” no acesso à saúde, já que não são atendidos pelo Subsistema de Saúde Indígena e também têm dificuldades para acessar o SUS. Como essa situação afetou os moradores do Parque das Tribos ao longo da pandemia? Quais foram as maiores dificuldades nesse sentido?
Com informações Agência Pública


