MANAUS – O número de residentes de Manaus que foram hospitalizados no estado de São Paulo com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) mais que dobrou em janeiro, na comparação com todo o ano de 2020. Os dados são de um levantamento feito pela produção da TV Globo com base nos dados de hospitalizações do Ministério da Saúde. A matéria foi publicada pelo G1 de São Paulo.
Entre abril e dezembro de 2020, 50 pessoas se encaixavam nessa situação. Só em janeiro de 2021, esse número já era de pelo menos 118, segundo a atualização mais recente dos dados, referente a 1 de fevereiro. O aumento é de pelo menos 136%.
Os 118 pacientes internados em janeiro estavam em 41 hospitais privados ou públicos de 13 municípios paulistas. Segundo hospitais e pacientes ouvidos pelo SP1, a maior parte deles são pessoas com poder aquisitivo para viajar e, na maioria das vezes, contar com convênio médico ou recursos para pagar um tratamento na rede particular.
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Em 2020, 50 pessoas de Manaus foram internados no estado. Em janeiro de 2021, já foram 118, mas ainda pode aumentar — Foto: Ana Carolina Moreno/TV Globo
A SRAG é um conjunto de sinais e sintomas que indica uma possível infecção pelo novo coronavírus ou outros vírus respiratórios. Desde 2009, os hospitais públicos e privados do Brasil precisam notificar toda nova internação de paciente nessas condições à vigilância epidemiológica municipal.
Dos 168 pacientes analisados no levantamento, mais de três quartos (129) já tinham tido a Covid-19 confirmada até o início de fevereiro. Outros 18 ainda estavam com o caso em investigação, e 20 foram classificados como “SRAG não especificada”, ou seja, quando o exame dá negativo para todos os agentes causadores da doença. Apenas um paciente teve resultado positivo para o vírus da Influenza, que provoca a gripe.
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Mais de três quartos dos pacientes foram diagnosticados com Covid-19 — Foto: Ana Carolina Moreno/G1
Viagem por conta própria
A rota Manaus-São Paulo não foi incluída nas operações entre governos para ajudar a aliviar a pressão hospitalar da capital amazonense. Segundo o governo estadual paulista, os pacientes incluídos no levantamento não passaram pela central de regulação de leitos do estado.
O Hospital Militar de Área de São Paulo (HMASP) informou que, no estado, recebeu apenas militares que estava internados em Roraima, transferidos pela Força Aérea Brasileira (FAB) e internados sem contato com a população local.
Já o Ministério da Saúde enviou dados mostrando uma operação de transferência de pelo menos 100 pacientes, até 20 de janeiro, para hospitais da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), que gerencia hospitais ligados às universidades federais.
A empresa diz que ofereceu mais de 205 leitos para atender pacientes de Manaus, mas fora de São Paulo.
A decisão da manauara Iolane Machado Silva de transferir o marido Pedro de um hospital de Manaus para outro na capital paulista ocorreu depois de ela ver o quadro dele piorar dia a dia.
“Não tinha mais o que fazer, cada dia ele piorava muito mais, e ele caminhava pro óbito”, contou ela à TV Globo.
“Ele estava num hospital particular, mas as condições tecnológicas que se tem em Manaus ficam muito aquém de São Paulo. A estrutura hospitalar que se tem. E isso faz uma diferença muito grande. O Pedro utilizou uma máquina q não tem aqui, que é a de impedância elétrica, onde ele consegue ver o pulmão em tempo real, então isso dá a real situação de como está o pulmão.”
Perfil dos pacientes
Só no grupo hospitalar Rede D’Or São Luiz, onde Pedro passou 11 dias internado na UTI, chegaram 40 pacientes vindos de Manaus neste ano, 20 deles só no início de fevereiro.
Segundo Ludhmilla Hajjar, cardiologista intensivista do grupo, a maioria dos pacientes tem entre 30 e 40 anos e em geral chegam ao hospital em estado grave.
“São pacientes que têm condição financeira, conseguem pagar um transporte aéreo de UTI e pagar uma internação ou via convênio ou particular”, explicou ela.
“Só lembrando que as UTIs aéreas no Brasil estão extremamente lotadas. Chegaram no seu limite, eu mesmo faço contato e muitas vezes pacientes de emergência eu só consigo transferir em 72 horas.”
Pedro conseguiu o transporte via UTI aérea, mas a médica alerta que há pacientes que viajam para São Paulo antes mesmo de terem a doença confirmada.
“Boa parte dos pacientes ainda nem têm o diagnóstico e só por medo, receio, eles perderam parentes, perderam amigos… Eles já vem pra São Paulo pra serem acompanhados, pra fazer testes e, na eventualidade do teste positivo, já terem tratamento e recurso.” (Ludhmilla Hajjar, cardiologista intensivista)
Variantes do novo coronavírus
O trânsito de pacientes entre os estados em aviões comuns é visto com preocupação por epidemiologistas. Um dos riscos é favorecer a circulação de cepas e variantes do vírus em novos locais, o que pode intensificar o contágio em uma nova comunidade.
“São cepas que deram uma mudança muito grande, tiveram uma mutação tão grande q parecem até outro vírus”, afirmou Ana Freitas Ribeiro, epidemiologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas.
“O que pode ocorrer na prática? Que o nosso sistema de defesa não reconheça mais aquele vírus. Mesmo que eu já tenha tido a doença. Deveriam as empresas aéreas, lógico, terem um maior controle em relação à doença em si. De não embarcar pessoas doentes, avaliar até a possibilidade de pedir um teste prévio, como alguns países estão pedindo.”

