Existe cinema indígena e está espalhado por todo o Brasil. Talvez você não soubesse disso porque no dia a dia estamos rodeados de filmes internacionais e nacionais que fazem parte do que podemos chamar de “cinema comercial”. É importante que pensemos o contexto do cinema indígena no Brasil, afinal eles que estavam aqui antes de todos nós. Para começar, te convido a refletir sobre como tudo isso começou no campo da sétima arte.
Historicamente, a produção audiovisual indígena brasileira é marcada por expressar a ideologia e a estética dos colonizadores, a começar pelas representações descontextualizadas dos indígenas desde cerca de 1910. A partir de então, esses filmes produzidos pelos não indígenas vêm contribuindo para a imagem estereotipada de selvagens, primitivos e exóticos.
Afastando-lhes de suas singularidades individuais e coletivas. E isso acabou resultando em visões distorcidas que situam os povos indígenas em um passado histórico. Nesse momento, você poderia pensar: “mas, por quê?”, e eu explico.
Brasil colônia
Tudo começou lá no século XIX, na independência do Brasil em relação a Portugal, momento em que o Estado brasileiro se baseava em valores europeus de progresso e superioridade. Ou seja, mesmo que estivéssemos “independentes”, deu-se continuidade ao processo de colonização. Nesse mesmo século, surge o cinema e é claro que também não ficou de fora da questão colonial.
Se analisarmos os filmes nacionais produzidos no começo do cinema, percebemos que a maioria sofria influência europeia e norte-americana. Por isso, acabavam enaltecendo ambas as indústrias, mesmo que de forma implícita. E, claro, isso contribuiu para que acontecessem as representações estereotipadas dos povos indígenas no audiovisual.
Quer exemplos de filmes que descontextualizam os povos indígenas? Assista “Casei-me Com um Xavante” (1955), de Alfredo Palácios, “Como Era Gostoso o Meu Francês” (1971), de Nelson Pereira dos Santos, e se quiser exemplos mais recentes, é só lembrar das telenovelas da Rede Globo “Uga-Uga” (2000-2001) e “Novo Mundo” (2016).
Indígenas se apropriam das câmeras
Esse cenário começou a mudar ao final do século XX, quando os povos indígenas se apropriaram da câmera e passaram a se autorrepresentar (como deveria ter sido desde o início). Isso se deu graças a iniciativas próprias de povos indígenas em todo o mundo, bem como incentivos de projetos, resultando em diversos realizadores indígenas na arte cinematográfica.
No Brasil, os povos Mebêngôkre-Kayapó foram um dos primeiros a apropriar-se da câmera e, posteriormente, outros povos também. Aqui ressalto o projeto Vídeo nas Aldeias e sua importância para o desenvolvimento do cinema indígena no Brasil.
O Vídeo nas Aldeias foi fundado pelo antropólogo e indigenista Vincent Carelli, em 1986, e é um projeto que, segundo o próprio site oficial, é precursor na área de produção audiovisual indígena no Brasil.
Desde o início, o objetivo do movimento é apoiar as lutas dos povos indígenas para fortalecer suas identidades e seus patrimônios territoriais e culturais, por meio de recursos audiovisuais e de um produção compartilhada com os povos indígenas.
Na primeira década do projeto Vídeo nas Aldeias, os cineastas não indígenas produziam e assinavam os filmes a partir das demandas das comunidades indígenas, mas foi em 1997 que o projeto se tornou uma escola de cineastas indígenas e passou a organizar oficinas de realização e montagem em aldeias de todo o Brasil.
Com informações do Manaus360


