Faltando um ano para as eleições de 2022, políticos do Amazonas já fazem uma movimentação pré-campanha para conquistar os eleitores. Com o alto preço dos alimentos, além do cenário da pandemia no Brasil e com a cheia dos rios no Estado, os pré-candidatos optaram pela estratégia de entregar cestas básicas para a população.
O cientista político Carlos Santiago explica que esse movimento pré-eleição é uma tradição no cotidiano da sociedade brasileira. Ele ressalta que, apesar das mudanças no cenário político, as transformações não foram tão intensas, pois ainda carregam cunho conservador.
Leia mais: Quem vai ser o abençoado por Bolsonaro nas eleições do Amazonas?
Ele ainda destaca que esse tipo de ação dos pré-candidatos ocorre por conta do patrimonialismo que controla as instituições, como é o caso dos partidos políticos. “A manutenção dessa cultura tradicional é bem retratada nas relações de troca entre a classe política e o eleitor”, explicou.
A cheia no Amazonas e a pandemia do novo coronavírus foram as “salvações” para os pré-candidatos conseguirem conquistar novos votos. Além disso, eles ganharam de brinde o aumento do preço dos itens da cesta básica. As entregas desses materiais têm sido feitas diariamente por políticos, que fazem fila para a boa ação e, inclusive, as compartilham nas redes sociais.
De mãe para mãe
Um exemplo disso, é que a deputada estadual Joana Darc (PL) aproveitou o Dia das Mães para entregar cestas básicas na Comunidade Nossa Senhora de Fátima, zona Norte de Manaus.
Leia mais: Supostos ‘funcionários fantasmas’ de Mayara Pinheiro receberam R$ 14 mil fora do Brasil
“Esse é meu primeiro dia das mães sendo mãe, e não poderia comemorar de forma melhor do que estando próximo a outras mães amazonenses”, escreveu nas redes sociais.
A visita da defensora dos animais poderia ser apenas para fazer a boa ação, entretanto, ela fez questão de entregar folhetos sobre os projetos realizados por ela.

Ela ainda aproveitou o ‘passeio’ para receber demandas dos moradores e afirmou que vai acompanhar as solicitações da população para que sejam atendidas.
Trabalhos a ‘todo vapor’
A deputada estadual Alessandra Campêlo afirmou que, no período da cheia no Amazonas, é necessário sair do gabinete e estar perto da população. A parlamentar afastada no mês passado, após assumir o cargo de secretária estadual de Assistência Social esteve em Parintins, distante 369 quilômetros de Manaus, entregando cestas básicas aos moradores da Ilha Tupinambarana que tiveram as casas afetadas pela enchente.
Leia mais: Em Manaus, apoiadores de Bolsonaro realizam a ‘Marcha da Família’ neste sábado
Em publicações nas redes sociais, a deputada afirmou que recebeu o convite do prefeito de Parintins, Bi Garcia. Além disso, ela estava acompanhada do presidente da Câmara Municipal de Parintins, Mateus Assayag, e da vereadora Vanessa Gonçalves.

“Diante do quadro de pandemia e enchente que enfrentamos no estado, é preciso sair do gabinete e estar perto das pessoas, levando ações, projetos, programas e serviços”, escreveu na legenda.
Quanto mais cestas entregues, melhor!
O deputado estadual Cabo Maciel (PL) já entregou cestas básicas em mais de oito comunidades próximas à cidade de Itacoatiara, distante 175 quilômetros de Manaus. Em última ação, ele esteve atuando com a Secretaria de Assistência Social (Seas) e Associação Mãos Solidárias.
Por meio das redes sociais, ele afirmou que quase duas mil cestas básicas foram entregues para famílias das comunidades, sendo mil em Itacoatiara e mais 800 nas zonas rurais do município.
Leia mais: Outdoor a favor de Lula é rasgado em Manaus
Na legenda da publicação, ele ainda agradeceu a colega de Plenário Alessandra Campêlo por estar ‘tendo um olhar diferenciado para o povo do interior’. Apesar da boa ação, o que chamou atenção foi o nome estampado do deputado nas sacolas de cestas básicas, seria uma estratégia para conquistar votos?

Mandato à disposição
Outro político que resolveu entregar cestas básicas nesse período foi o deputado Tony Medeiros (MDB). O parlamentar esteve no Careiro da Várzea, distante 23 quilômetros de Manaus, e afirmou que entregou centenas de cestas no município.
Ele contou que a ação era para ajudar os ‘irmãos ribeirinhos’ que estão sofrendo com a cheia dos rios. Ele ainda destacou que a Comunidade Lago dos Reis e Igarapé Açu são as mais afetadas. O deputado ainda ressaltou que o mandato dele está à disposição de todos.

Pego no pulo
O deputado federal Silas Câmara (Republicanos) foi uma das personalidades políticas que entregou cestas básicas no interior do Amazonas. Por meio das redes sociais, o deputado afirmou que a equipe realizou a entrega de mais de 800 cestas básicas aos municípios amazonenses.
Para se promover, ele afirmou que tinha feito a boa ação às famílias do interior, entretanto, a oferta de alimentos foi realizada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

“A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) continua doando cestas alimentícias às famílias quilombolas em situação de risco alimentar no Amazonas, na sexta-feira (7) o município de Novo recebeu cerca de 880 cestas básicas distribuídas para 220 famílias da comunidade Tambor”, escreveu no post.
Eleitores ruins, políticos ruins
Santiago comentou que o controle do patrimonialismo acarreta uma tradição de política negativa, a qual seria a ‘moeda de troca’. Em que o eleitor oferece o voto ao candidato em troca de alguma coisa. Nas campanhas eleitorais, é comum o candidato prometer empregos e até imóveis, caso a pessoa vote ou faça campanha para ele.
Leia mais: Prefeito de Barreirinha contrata mercadinho como fornecedor de madeiras para marombas
“Pré-candidatos e governantes aproveitaram e aproveitam o desemprego, o aumento da pobreza e a cultura da troca de votos, para distribuir rancho para conquistar votos, principalmente os gestores municipais do interior, aproveitando da legislação que trata do Estado de Calamidade Pública”, afirmou.
Essa troca de favores pode parecer inofensiva no começo, mas pode gerar uma má gestão pública, já que os candidatos não são eleitos pelo bom trabalho ou boas propostas, mas sim, por aquilo que eles oferecem aos eleitores. “Por isso que não existem numa sociedade com péssimos políticos e bons eleitores, porque só existem péssimos políticos por causa de péssimos eleitores”, disse o cientista.
O cenário perfeito
A pandemia do novo coronavírus acarretou uma série de problemas para o Brasil, entre eles, o desemprego. Além disso, as famílias amazonenses sofrem com o período de cheia, o qual já se tornou uma das enchentes históricas que atingiu o Amazonas. Com isso, os pré-candidatos rondam as famílias que passam por essa situação para serem os ‘salvadores da pátria’.
O cientista político afirmou que os políticos se aproveitam da fragilidade da população para ganhar novos eleitores em cima dessas circunstâncias. “A entrega de rancho por políticos só tem uma postura clara: captação de eleitores. E ainda explica a péssima qualidade e o grande objetivo da política no Brasil”, comentou.
Leia mais: Depois do ‘piscinão’, vereador Sandro Maia quer pagar R$ 1 mil para presidentes de bairros
Santiago ainda disse que há pré-candidatos que usam os atos do governo para se promoverem. Ações como entrega de benefícios sociais e financeiros são os principais alvos desses políticos durante a pré-campanha.
Entretanto, ele destacou que o Ministério Público pode fiscalizar o uso do dinheiro público pelos políticos e, caso encontrem ilegalidades, deve mover ações cabíveis. “O eleitor consciente, com uma visão crítica e interessada numa política de qualidade, deve denunciar ao Ministério Público qualquer proposta ilegal”, ressaltou.


