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    Home»Amazônia»A BR-319 que não aparece nos mapas
    Estudo do MapBiomas aponta que a área da BR-319 pode ter até 7 vezes mais cursos d’água do que indicam dados oficiais. (Créditos: Varadouro)
    Amazônia

    A BR-319 que não aparece nos mapas

    12 de fevereiro de 2026
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    Novo estudo aponta que a rodovia, que liga Manaus (AM) e Porto Velho (RO), tem até 7 vezes mais cursos d’água do que o IBGE mapeou na região do Interflúvio Madeira-Purus.

    Começo este artigo reafirmando o que já disse em outras ocasiões, só que com outras palavras: ninguém quer pagar a conta da BR-319.

    @kleiton.renzo

    A rodovia vai continuar sendo alvo de disputa em torno das mudanças no licenciamento ambiental, mas não porque isso resolva o problema real, mas porque, politicamente, rende, principalmente, para quem vive da pauta.

    No entanto, embora a nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental (Lei nº 15.190/2025) — que cria a famigerada Licença Ambiental Especial (LAE) — tenha entrado em vigor em 4 de fevereiro, o trecho do meio continuará submetido ao regramento anterior (risos).

    Por quê?

    Porque, quando se trata de infraestrutura na Amazônia, este governo ainda precisa fingir alguma responsabilidade. Na prática, qualquer mudança no rito depende de um decreto que defina quais empreendimentos poderão ser licenciados segundo as novas regras.

    Agora sim. Enquanto o processo segue no rito comum, vale a pena olhar para a nota técnica do MapBiomas “Análise do Mapeamento de Recursos Hídricos no Interflúvio dos Rios Purus e Madeira”, publicada em janeiro. O documento mostra que a área de influência da BR-319 tem uma rede de drenagem muito maior do que indicam os mapas oficiais: 4,1 vezes mais cursos d’água do que estima a Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS) e 7,1 vezes mais do que os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

    Pois é!

    Em bom português: o estudo demonstra que estamos planejando uma das obras mais controversas da Amazônia com informações incompletas.

    Que surpresa, não é mesmo?

    E isso tem consequências sociais, ambientais, jurídicas e políticas.

    Já em 2021, pesquisadores do Programa de Pesquisas em Biodiversidade da Amazônia Ocidental (PPBio Amoc), liderados por William Ernest Magnusson, alertavam que obras viárias na Amazônia frequentemente enterram cursos d’água e APPs com aterros e bueiros. Isso acelera a degradação ambiental, aumenta os custos públicos e exige mais manutenção ao longo da rodovia. Em alguns casos, vira tragédia, como no desabamento das pontes sobre os rios Curuçá e Autaz-Mirim.

    O estudo do MapBiomas não muda o que se sabe sobre os grandes rios Madeira e Purus. O que muda é o que não aparece. Pequenos igarapés, drenagens de primeira e segunda ordem, invisíveis aos sensores ópticos tradicionais.

    Onde os mapas oficiais mostram “terra firme”, o LiDAR revelou uma malha densa de água.

    Ao comparar mapas e bases de dados, os pesquisadores perceberam que cada uma enxerga a rede de rios e igarapés de um jeito.

    E isso muda tudo no cálculo das matas ciliares.

    Considerando a faixa mínima de 30 metros prevista no Código Florestal, o LiDAR identificou até 4,1 vezes mais extensão de cursos d’água do que os mapas da FBDS, especialmente os pequenos canais escondidos sob a floresta densa.

    A diferença fica muito expressiva quando se olha para as APPs.

    Nas áreas amostrais, menos de 1% do território aparece como APP nos dados do CAR. A estimativa sobe para 4,2% no IBGE, 7,6% na FBDS e ultrapassa 33% quando se usa o LiDAR.

    Quando esses fatores são aplicados para toda a área do entorno da BR-319, que tem cerca de 13,5 milhões de hectares, a distorção se repete. Os mapas do IBGE e da FBDS indicam que apenas 2,6% e 5,4% da região seriam APPs de matas ciliares. Já a estimativa com base no LiDAR aponta algo entre 20,7% e 23,6%.

    Estamos falando de milhões de hectares que simplesmente não aparecem nos processos de planejamento, licenciamento e fiscalização ambiental.

    E aqui entra o ponto que o PPBio Amoc alerta há anos: a água não é detalhe na paisagem do Interflúvio Madeira-Purus. “A extensão da ação de flutuações no lençol freático talvez seja a característica mais marcante desta região”, diz William Ernest Magnusson. A BR-319 atravessa um território onde o solo, a vegetação e a biodiversidade são moldados por uma dinâmica de saturação e drenagem que muda ao longo do ano.

    Magnusson também registra que “grande parte da região pode ser considerada zona úmida”. Na época das chuvas, a água do subsolo fica tão próxima da superfície que, em muitos lugares, basta cavar menos de um metro para encontrar água.

    Mesmo onde a floresta parece “terra firme”, o chão está encharcado por dentro durante boa parte do ano. Isso molda a vegetação, os organismos e o funcionamento do ecossistema. Tratar o interflúvio como terra firme homogênea é uma simplificação ecológica e o impacto aparece quando se olha para a biodiversidade.

    O PPBio aponta “fortes efeitos nas assembleias de invertebrados até 1,5 km de áreas desmatadas e efeitos menores até 6 km”, ou seja, o impacto do desmatamento e da infraestrutura não fica restrito à beira da estrada, ele se espalha por quilômetros floresta adentro.

    E há ainda o alerta sobre a engenharia aplicada na Amazônia.

    Em artigo científico publicado em 2021, com participação de Magnusson, pesquisadores descrevem que “as estradas são construídas com aterros que enterram APPs sob as rampas de acesso às pontes ou, no caso de bueiros, enterram completamente as APPs e os cursos d’água”. E concluem: “sustentamos que enterrar APPs não deveria ser o ‘método padrão’”.

    É aqui que o LiDAR encontra a ecologia. Se a região é uma floresta estruturada por água, soterrar matas ciliares e cursos d’água não é só ilegal, é uma forma concreta de degradar o território e aumentar custos públicos.

    E isso não é detalhe técnico.

    A pavimentação da BR-319 vem sendo discutida no âmbito de uma Avaliação Ambiental Estratégica (AAE), justamente para antecipar impactos cumulativos e orientar decisões públicas.

    Mas como fazer isso se a base de informação subestima de forma tão significativa a hidrografia e as áreas legalmente protegidas?

    Na prática, um território muito mais sensível à abertura de estradas, ramais, ocupações e desmatamento está sendo tratado como se fosse mais simples do que realmente é.

    Isso deveria afetar o cálculo de impactos, o desenho de medidas mitigadoras e até a própria viabilidade ambiental do empreendimento.

    Deveria.

    Não por acaso, o estudo aponta que a adoção ampla de dados LiDAR “alteraria substancialmente a compreensão atual sobre a extensão da rede hidrográfica e das áreas legalmente protegidas associadas”, principalmente em regiões com cobertura florestal.

    A BR-319 é um teste de seriedade. Se o debate público insiste em tratar o licenciamento como obstáculo, a ciência está lembrando algo básico: o licenciamento é a última instância institucional capaz de impedir que o país tome uma decisão grande demais com dados pequenos demais.

    Tu já deves ter lido/ouvido isso antes, hein?

    Se decisões estratégicas continuarem sendo adotadas com base em informações que ignoram boa parte da água que estrutura o território, o resultado será mais insegurança jurídica, mais conflito socioambiental e mais degradação travestida de desenvolvimento.

    O estudo do MapBiomas não encerra o debate, ele expõe uma situação incontornável: o desconhecimento também é uma escolha política e, quase sempre, uma escolha cara demais para a Amazônia.

    Feito por: Izabel Santos

    VIA VARADOURO

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