A assessora pessoal do prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), Anabela Cardoso Freitas, realizou uma transferência bancária de R$ 1.351.942,00 ao empresário Alcir Queiroga Teixeira Junior, apontado pelas investigações da Polícia Civil do Amazonas (PC-AM) como integrante do núcleo de agentes públicos do Comando Vermelho (CV).
A informação consta em um relatório que embasou a decretação da prisão de 24 pessoas suspeitas de integrar a organização criminosa de tráfico de drogas e crimes correlatos, “em coautoria com traficantes do Amazonas e outras unidades da federação, e com participação de agentes públicos”. A reportagem é da revista Cenarium.
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A transferência do montante tornou-se um dos principais eixos da investigação da PC-AM na Operação Erga Omnes. O valor, considerado atípico e incompatível com a renda da investigadora, é apontado como elemento central para apuração de possível lavagem de dinheiro vinculada a uma organização criminosa. De acordo com o relatório produzido pelo 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP), obtido pela REVISTA CENARIUM, a movimentação financeira não apresentou justificativa formal identificável.
A apuração incluiu consultas a cartórios de Manaus para verificar eventual compra ou venda de imóvel que pudesse explicar a transação, mas nenhuma negociação foi encontrada. As autoridades afirmam que a ausência de lastro documental reforçou os indícios de que o montante teria sido utilizado para ocultação de ativos. O valor foi transferido a Alcir, identificado como proprietário da empresa Revoar Turismo, classificada na investigação como empresa fantasma.
O nome de Anabela consta como “Principal Envolvido” no Relatório de Inteligência Financeira (RIF) 132265 do COAF, documento que analisou movimentações globais superiores a R$ 73 milhões relacionadas à rede investigada. O termo é utilizado para designar pessoas físicas ou jurídicas sobre as quais recaem indícios mais sólidos de irregularidade financeira.
Empresa fantasma e vínculo institucional
No documento, os investigadores da Polícia Civil sustentam que a ausência de lastro documental reforçou os indícios de que o montante teria sido utilizado para ocultação de ativos. O valor foi transferido a Alcir, identificado como proprietário da empresa Revoar Turismo, classificada na investigação como empresa fantasma.
Segundo o relatório, diligências apontaram que a Revoar Turismo não possuía sede física real nem presença ativa na internet. Consultas às companhias aéreas GOL e Latam indicaram que não houve emissão de passagens entre 2021 e 2025, período analisado na investigação.
Anabela é Investigadora da Polícia Civil, mas está cedida à Prefeitura de Manaus no momento das apurações. Segundo o relatório, ela exercia a função de Coordenadora do Gabinete Pessoal do prefeito David Almeida (Avante), cargo de confiança considerado estratégico dentro do Executivo municipal.
O relatório menciona ainda que a servidora já havia sido cedida anteriormente à Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam), como mostra a foto do documento abaixo, o que segundo os investigadores, evidencia sua atuação em diferentes núcleos da administração pública estadual. Para a PC, o trânsito institucional amplia a relevância da análise sobre a movimentação financeira identificada.

A Polícia Civil afirma que a identificação da transferência de R$ 1,35 milhão integra o conjunto de provas reunidas na apuração sobre Organização Criminosa (Orcrim) e Lavagem de Dinheiro. O relatório classifica a circunstância como “extremamente preocupante” e registra que as diligências seguem para aprofundar o contexto das remessas consideradas atípicas.
Após a operação policial deflagrada contra os núcleos do Comando Vermelho, a Prefeitura de Manaus emitiu uma nota, na qual afirma que não ser alvo da operação realizada nessa sexta-feira, 20, pela PC-AM. “Conforme informado pelas próprias autoridades, nem o prefeito David Almeida nem a estrutura administrativa do município integram o objeto da investigação”, diz trecho do comunicado.
“É inaceitável que setores da política tentem distorcer fatos para criar narrativas mentirosas e atingir a honra de quem tem trabalhado com responsabilidade pela cidade. A exploração oportunista de investigações que não envolvem a gestão municipal revela mais sobre os seus autores do que sobre os fatos”, diz trecho da nota.
Veja na íntegra:
“A Prefeitura de Manaus esclarece que não é alvo da operação realizada nesta sexta-feira, 20/2, pela Polícia Civil do Estado do Amazonas. Conforme informado pelas próprias autoridades, nem o prefeito David Almeida nem a estrutura administrativa do município integram o objeto da investigação.
É inaceitável que setores da política tentem distorcer fatos para criar narrativas mentirosas e atingir a honra de quem tem trabalhado com responsabilidade pela cidade. A exploração oportunista de investigações que não envolvem a gestão municipal revela mais sobre os seus autores do que sobre os fatos.
A atual administração mantém compromisso absoluto com a legalidade, a transparência e o respeito às instituições. Qualquer servidor eventualmente investigado responderá individualmente por seus atos, nos termos da lei, sem prejuízo do funcionamento regular da máquina pública.
Manaus não pode ser refém de ataques especulativos nem de tentativas de desinformação. A verdade prevalece nos fatos, não nas insinuações.”


