O vereador de Manaus Sargento Salazar (PL), que há um ano atacava as cobranças no Porto de Manaus e associava os altos custos ao então governador Wilson Lima (União Brasil), agora silencia sobre o tema. A mudança ocorre após Alessandro Bronze Toniza, empresário ligado ao terminal, tornar-se 1º suplente de Alberto Neto (PL) ao Senado, aliado e correligionário de Salazar. Em agosto de 2025, em um vídeo publicado nas redes sociais, Salazar classificou as tarifas do porto como “roubo” e responsabilizou Wilson Lima pelas cobranças.
No vídeo, gravado à época dentro do Porto de Manaus, o vereador questionou uma cobrança de R$ 50 por carro e outra de R$ 8 para quem entrasse a pé para buscar encomenda. Em seguida, mostrou no celular de um acompanhante valores que, segundo a gravação, incluíam R$ 10 de tarifa de embarque, R$ 10 de acesso de não passageiros, R$ 10 para turismo e R$ 200 pela permanência diária de uma embarcação.
“Isso daí é roubar as pessoas humildes”, afirmou o vereador na gravação, antes de dizer que levaria a denúncia ao Ministério Público. Salazar também associou as cobranças diretamente ao então governador, a quem chamou de “pior governador do Brasil” e “atraso de vida”, além de declarar que faria campanha contra Wilson Lima caso ele disputasse o Senado ou a Câmara dos Deputados.
A atribuição feita por Salazar no vídeo, no entanto, não reflete integralmente a estrutura administrativa do Porto Organizado de Manaus. O terminal é administrado pelo Governo do Amazonas, por meio da Superintendência Estadual de Navegação, Portos e Hidrovias (SNPH), a partir de delegação da União formalizada pelo Convênio de Delegação 01, de 1º de agosto de 2019. Nesse modelo, a SNPH exerce as atribuições de Autoridade Portuária previstas no artigo 17 da Lei Federal 12.815/2013.
A estrutura administrativa, portanto, não atribui pessoalmente ao governador a condição de autoridade portuária nem de concessionário privado do terminal. As competências são distribuídas entre a União, responsável pelo regime federal do sistema portuário; a SNPH, que exerce a administração delegada do Porto Organizado de Manaus; e empresas privadas responsáveis por determinadas áreas, operações ou serviços portuários.
O Ministério de Portos e Aeroportos classifica Manaus como um porto organizado delegado, sob administração do Governo do Amazonas. Nesse modelo, a definição e a cobrança de tarifas e serviços dependem das competências e dos responsáveis por cada operação, não sendo atribuídas diretamente ao chefe do Executivo estadual.
De Lima a Bronze
Alessandro Bronze Toniza aparece nos documentos reunidos para esta apuração como ex-administrador da Amazônia Operações Portuárias e da Empresa de Revitalização do Porto de Manaus S/A, empresas relacionadas à exploração do terminal em período anterior, e também como presidente da Roadway Centro Comercial S.A. – SPE, sociedade que atua em áreas comerciais dentro da estrutura portuária.
A documentação judicial citada no levantamento também registra a participação de Toniza em processos relacionados à antiga administração do porto. Na Ação Civil Pública de Improbidade Administrativa 0019436-60.2012.4.01.3200 e na Ação Penal 0011339-42.2010.4.01.3200, ele aparece relacionado a acusações envolvendo a alienação de patrimônio da União, entre eles um cais flutuante de cem metros e dois ônibus, em julho de 2005. Segundo o relatório, houve determinação judicial de bloqueio de bens e contas para assegurar eventual ressarcimento ao erário.
O Ministério Público Federal (MPF) sustenta que a gestão empresarial contribuiu para a deterioração da estrutura portuária, enquanto os processos judiciais registram as imputações e medidas adotadas no curso das ações. Em decisão do Superior Tribunal de Justiça localizada na pesquisa, Alessandro Bronze Toniza também aparece como interessado em processo envolvendo a Empresa de Revitalização do Porto de Manaus S/A e o MPF.
Os registros empresariais de 2026 apresentados no levantamento apontam ainda a permanência de Toniza no ambiente empresarial ligado ao complexo portuário. Isso ocorre paralelamente à sua entrada na política eleitoral deste ano, quando passou a integrar a chapa de Alberto Neto como 1º suplente ao Senado pelo PL, partido ao qual também pertence Sargento Salazar.
O 1º suplente é o substituto previsto para assumir a vaga em situações previstas pela legislação eleitoral e parlamentar. Na disputa de 2026, ele declarou à Justiça Eleitoral patrimônio de R$ 23.440.559,98, incluindo R$ 900 mil em dinheiro em espécie e veículos avaliados, em conjunto, em mais de R$ 5,4 milhões.
A evolução patrimonial informada no levantamento também registra uma diferença expressiva em relação à declaração apresentada por Toniza em 2016, quando disputou a Vice-Prefeitura de Manaus pelo PRTB. Naquele ano, havia declarado R$ 6,66 milhões; em 2026, o valor informado à Justiça Eleitoral chegou a R$ 23,44 milhões, uma variação nominal de aproximadamente 252%.
A documentação sobre o Porto também registra que os antigos contratos de arrendamento celebrados em 2001 para exploração de áreas do terminal tinham prazo até 25 de novembro de 2022, conforme o Plano de Desenvolvimento e Zoneamento do Porto de Manaus. O documento oficial registra ainda que o atual modelo administrativo decorre do Convênio de Delegação 01/2019, pelo qual a União delegou ao Estado do Amazonas a administração e exploração do Porto Organizado.



