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    Home»Brasil»O trabalho escravo não acabou. E comunicadores também estão entre as vítimas
    Escravo
    Exploração silenciosa e condições degradantes revelam o trabalho escravo contemporâneo no setor da comunicação. (Divulgação/Governo de MS)
    Brasil

    O trabalho escravo não acabou. E comunicadores também estão entre as vítimas

    29 de janeiro de 2026
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    Perfumes Árabes

    Falar sobre trabalho escravo no Brasil ainda provoca desconforto. Talvez porque muitos insistam em tratá-la como um capítulo encerrado da nossa história. Mas ele segue vivo, adaptado aos tempos atuais, sustentado pela invisibilidade e pela precarização. No Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, é necessário ampliar o debate e fazer uma autocrítica incômoda: comunicadores não são apenas narradores dessa realidade. Também podem ser vítimas diretas dela.

    O trabalho em condições análogas à escravidão é definido pela legislação brasileira como aquele marcado por jornada exaustiva, condições degradantes, trabalho forçado ou restrição da liberdade, inclusive por endividamento. Não é preciso haver cárcere físico. Basta que a dignidade seja sistematicamente violada. Essa definição vale para o campo, para a cidade e também para o setor da comunicação.

    @kleitonrenzo

    Na prática, o trabalho escravo contemporâneo na área da comunicação se manifesta de forma silenciosa e naturalizada. Jornadas excessivas sem controle ou remuneração adequada, ausência de contrato formal, pagamentos irregulares ou inexistentes, exigência de disponibilidade permanente, acúmulo de funções sem compensação, ameaças veladas de substituição, assédio moral e a imposição do discurso de que “é preciso aceitar para não perder espaço” são exemplos claros de exploração. Quando o profissional não tem autonomia para recusar condições abusivas sem colocar em risco sua subsistência, há violação de direitos.

    Os dados nacionais reforçam que o problema está longe de ser residual. Em 2025, o Brasil registrou mais de 4.500 denúncias de trabalho escravo pelo Disque 100, o maior número da série histórica. Quase 3 mil trabalhadores foram resgatados em ações de fiscalização. Embora os setores mais conhecidos sejam a agropecuária, a construção civil e o trabalho doméstico, a lógica da exploração atravessa também áreas consideradas intelectuais ou criativas, como o jornalismo, a publicidade e a produção de conteúdo.

    A romantização da precarização na comunicação contribui para esse cenário. Trabalhar sem descanso, sem direitos e sem garantias ainda é visto, em muitos ambientes, como sinônimo de vocação, paixão ou “fase inicial da carreira”. Esse discurso apenas encobre relações abusivas e dificulta a denúncia. Comunicadores, assim como qualquer trabalhador, têm direito a condições dignas de trabalho e devem reconhecer quando esses limites são ultrapassados.

    O trabalho escravo só se sustenta porque permanece invisível. E essa invisibilidade é reforçada quando profissionais da comunicação naturalizam a própria exploração ou acreditam que denunciar pode comprometer suas trajetórias. Denunciar não é fragilidade. É proteção coletiva. O Disque 100, o Ministério Público do Trabalho e o Ministério do Trabalho e Emprego recebem denúncias de forma sigilosa, inclusive em casos de exploração urbana e intelectual.

    O papel do comunicador, portanto, é duplo. Informar a sociedade sobre esse crime e reconhecer que ele também pode estar presente dentro das redações, produtoras, assessorias e plataformas digitais. Não existe neutralidade possl quando a dignidade humana é violada, nem fora nem dentro da profissão.

    Neste 28 de janeiro, combater o trabalho escravo é também olhar para dentro. É romper o silêncio que normaliza abusos, fortalecer a denúncia e afirmar que nenhum conteúdo, audiência ou prazo justifica a exploração humana. Comunicar é um ato político. E defender condições dignas de trabalho também é.

    VIA REPÓRTER CABOCLA

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