Mantidos sob sigilo por receio de serem mortos, indígenas e não indígenas ouvidos pela Amazônia Real revelam que Amarildo da Costa Oliveira, o “Pelado”, estaria devendo ao menos 80 mil reais para o atravessador de pescado e caça peruano Rubens Villar Coelho, o “Colômbia”. O valor seria o resultado de “prejuízos” que “Pelado” e outros pescadores e caçadores tiveram com carregamentos de peixes e animais silvestres apreendidos por causa do monitoramento da Equipe de Vigilância da Univaja (EVU), assessorada pelo indigenista Bruno Pereira na Terra Indígena Vale do Javari, no extremo oeste do Amazonas.
O território, na fronteira com Peru, foi homologado em 2001 e as atividades de caça, pesca e exploração de madeira por não indígenas são proibidas e constituem em crimes ambientais. Na TI Vale do Javari, vivem sete povos contatados e de recente contato e isolados. Muitos ribeirinhos habitavam a TI e, com a homologação ,sofreram a desintrusão (foram obrigados a sair), permanecendo nas vizinhanças, mas sempre mantendo uma relação tensa e de pouca amizade com os indígenas.
A dívida de 80 mil reais de “Pelado” com “Colômbia” pode ter sido o estopim para que o primeiro, já acusado pela Polícia Federal (PF) como o executor da morte do indigenista e do jornalista, planejasse a morte da dupla. Uma das fontes ouvidas pela reportagem confirmou que “Pelado” andava revoltado pelas ações de monitoramento coordenadas por Bruno Pereira. “Eles tinham dívidas de equipamentos. Eles mesmo falaram isso uma vez na comunidade”, disse.
Bruno e Dom foram mortos no dia 5 de junho de forma brutal: a tiros, queimados e esquartejados, conforme a confissão de “Pelado”. Antes, conforme publicou a agência, o indigenista, o jornalista e indígenas da equipe da EVU foram ameaçados pelo pescador e mais dois homens na entrada da terra indígena.
No fim da tarde do dia 9 deste mês, quando a operação de buscas das Polícia Federal, Forças Armadas e demais órgãos estavam no Vale do Javari, uma embarcação lotada de pirarucus, distribuídos em seis caixas de isopor com gelo, foi apreendida pelos indígenas da EVU, conforme noticiou a agência com exclusividade. O barco pertencia a “Pelado” e estava escondido por folhagens quando foi descoberto pelos indígenas. A reportagem fotografou a embarcação.
No dia 23 de março deste ano, uma embarcação de motor 150 HP foi vista por indígenas da Equipe de Vigilância da Univaja (EVU) saindo da TI Vale do Javari. Segundo relatório da Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari, principal organização do território) do dia 12 de abril, o barco pertencia a uma pessoa chamada “Jane”. Seu outro companheiro foi identificado como “Beré”.
“Os pescadores e o Colômbia já estavam com raiva porque o barco 150 (HP) tinha sido apreendido. O que soubemos é que eles se juntaram na base da pistolagem para roubar a ‘balieira’ (termo local da embarcação) de volta. Tempos depois, mandaram um 60 (motor) para as comunidades ribeirinhas. Esse motor mais rápido não é usado por pequenos pescadores. Esse mesmo barco de motor 60 foi usado pelos pescadores para matar o Bruno. Uma balieira desse tamanho não é comum na região”, disse uma das fontes indígenas da Amazônia Real, a respeito dessa apreensão e dos desdobramentos dela.
Conforme o relatório da Univaja, a EVU comunicou a presença dos pescadores ilegais no dia 23 de março saindo da terra indígena a agentes da Força Nacional de Segurança Pública (que ficam na base do rio Itacoaí/Ituí) e da Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari, da Funai, que interceptaram o barco no porto de Atalaia do Norte. No mesmo dia, os infratores foram encaminhados para a 50ª Delegacia Interativa de Atalaia do Norte e prestaram depoimento.
No barco, foram apreendidos 25 tracajás, 2 tartarugas, 300 quilos de carne de queixada salgada e 400 quilos de pirarucu. Cinco dias antes, em outro avistamento da EVU, “oito integrantes armados” estavam em atividade dentro da TI com mais de 900 quilos de sal. Segundo a Univaja, em ofício, todos os detalhes dessas operações foram encaminhados para autoridades públicas, como Polícia Federal e Ministério Público Federal.
O barco e o motor foram levados por policiais civis para a balsa da prefeitura do município de Atalaia do Norte e “desapareceu”. A suspeita é que, na realidade, o barco foi recuperado pelos pescadores, a partir da intervenção de pessoas ligadas a “Colômbia”, de acordo com fontes ouvidas pela reportagem.
“Esse tanto de sal que foi apreendido era para conservar a carne. Carne de queixada, mutum, veado, pirarucu. Tudo eles salgam e depois enviam para a mão de quem financia eles”, contou uma fonte indígena à agência.
Os custos da pesca

(Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)
“Pelado” e outros ribeirinhos que vivem e atuam em comunidades na divisa da TI Vale do Javari estão longe de serem pescadores de subsistência. Fontes ouvidas pela reportagem detalharam os custos operacionais envolvidos na caça ilegal de grandes animais, como anta e queixada (porco do mato) ou na pesca do pirarucu. É por isso que há a necessidade de um grande patrocinador para a atividade ilegal.
A pesca do pirarucu em grande quantidade dura até 15 dias na TI Vale do Javari. Os custos incluem sal e gelo (para salgar e conservar a carne dos animais abatidos) e muitos tambores de gasolinas para abastecer o barco, que deve ser de grande porte, em geral com motor 60 HP ou 150 HP.
No mercado local, um tambor de gasolina custa em média 1.560 reais. “Um tambor para motor veloz como destes pescadores dura no máximo oito horas. Para uma pesca grande e de muitos dias, são vários tambores”, disse a fonte.
Já uma malhadeira para capturar o maior peixe da bacia amazônica custa em torno de 5 mil a 7 mil reais no mercado de Atalaia do Norte. Para a captura, é preciso ao menos de oito a dez malhadeiras para jogar no lago e assim “cercar” o pirarucu, conforme informações apuradas pela reportagem.
“Um pequeno pescador de Atalaia do Norte que pesca para subsistência não compra esse tipo de malhadeira. A malhadeira dele é simplesinha, para peixe miúdo, pequeno, que custa de 90 a 120 reais. Ele também não usa uma embarcação grande. Usa um ‘pec pec’, que é um barco pequeno de 3, 5, 9 HP e é mais lento. Ele não tem recurso para comprar tanta coisa. Esses pescadores que invadem a terra indígena tiram dinheiro de onde para financiar a pesca e a caça? Tem alguém por trás que solta o dinheiro. E é pessoal do narcotráfico”, disse outra fonte.
A Amazônia Real procurou a Polícia Civil do Amazonas e a Secretaria de Segurança Pública do Estado para pedir informações sobre o depoimento das pessoas apreendidas e ouvidas na Delegacia de Atalaia do Norte, conforme informações da Univaja, e sobre o que aconteceu com o barco desaparecido. A assessoria da Polícia Civil disse que tentou obter informações junto ao delegado Alex Perez, da 50o. Delegacia Interativa de Atalaia do Norte, mas não conseguiu se comunicar com o policial por meio de telefone e mensagem até o momento.
Leia a matéria completa das jornalistas Elaíze Farias e Kátia Brasil no site da Amazônia Real.
Foto: José Medeiros
*Fonte: Amazônia Real – Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional.


