MANAUS (AM) – A Refinaria da Amazônia (Ream), operada pelo Grupo Atem, informou em nota oficial que sua unidade em Manaus não produz diretamente gasolina e diesel dentro das especificações exigidas pela legislação brasileira. A informação consta na resposta enviada à reportagem da REVISTA CENARIUM sobre a alta dos combustíveis em março de 2026 e detalha a necessidade de importação de insumos para a formulação final dos produtos.
“É necessária a importação de insumos derivados de petróleo para atingir a especificação exigida pela legislação brasileira”, declarou a empresa. No mesmo documento, a refinaria afirma que suas unidades de destilação atmosférica estão em operação, mas não realizam, de forma isolada, a produção completa dos combustíveis comercializados.
A declaração formaliza, em documento oficial, um ponto que vinha sendo apontado por agentes do setor e análises técnicas sobre o funcionamento da unidade após a privatização. “A nota admite que a refinaria não produz gasolina e diesel diretamente”, afirmou o coordenador do Sindicato dos Petroleiros do Amazonas, Marcus Ribeiro, ao analisar a pedido da reportagem o conteúdo encaminhado pela empresa.
Modelo de operação e importação de insumos
Na mesma manifestação, a refinaria detalha que adquire tanto petróleo quanto derivados intermediários no mercado internacional, com pagamentos em dólar e baseados em referências como o Brent. Esses insumos, segundo a empresa, são combinados com a produção local para compor os combustíveis finais distribuídos no mercado.
“Por isso, é necessária a importação de insumos para formulação com a produção da refinaria”, informou a Ream. A empresa também declarou que os preços praticados seguem parâmetros internacionais, incluindo custos de frete, seguro e internalização. A análise técnica apresentada a partir da nota indica que esse modelo corresponde à utilização de derivados intermediários importados, com posterior mistura e ajuste em território local.
“Eles preferem importar do que investir na modernização da planta para processar o óleo de Urucu de forma plena”, disse Ribeiro, ao descrever a estratégia operacional mencionada pela empresa. Segundo ele, esse tipo de operação difere do refino completo do petróleo bruto realizado em unidades industriais integradas.
Portaria federal pressiona modelo adotado na refinaria
A admissão semanas após a publicação da Portaria Interministerial nº 167/2026, que estabelece critérios para concessão de incentivos fiscais na Zona Franca de Manaus (ZFM). A norma exige que empresas do setor realizem etapas industriais completas de refino dentro da região para manter os benefícios tributários.
A medida atinge diretamente operações baseadas na importação de insumos e na formulação local de combustíveis, como descrito na nota da refinaria. A portaria também vincula o acesso aos incentivos ao cumprimento do Processo Produtivo Básico (PPB), que define o nível mínimo de industrialização exigido.
Segundo a leitura técnica, a exigência de etapas mais robustas de refino tende a alterar a estrutura operacional das empresas que atuam nesse modelo. “A nota só confirma uma coisa: a refinaria depende de insumos externos para produzir o combustível que vende”, afirmou Ribeiro, ao relacionar a declaração da empresa com os critérios estabelecidos pela nova regulamentação.
Política de preços e relação com o mercado internacional
Na nota, a refinaria também justificou os reajustes recentes com base na alta dos preços globais de petróleo e combustíveis. A empresa informou que, desde o fim de fevereiro de 2026, a gasolina e o diesel tiveram elevação de 36% e 65% no mercado internacional, respectivamente, enquanto o barril de petróleo passou de 73 para 110 dólares.
“A REAM precisa aplicar também aos seus clientes preços de paridade de importação”, declarou a empresa, ao explicar a política de preços adotada. A análise técnica associa esse modelo à dependência de insumos adquiridos em dólar e à necessidade de reposição de estoques com base no mercado externo.
“O PPI continua vivo e forte porque a refinaria é privada”, disse Ribeiro, ao comentar a manutenção da paridade internacional na formação de preços. Ele também mencionou o impacto desse modelo no consumidor. “Eles admitem que são escravos do dólar, enquanto o povo ganha em real”, afirmou.


