MANAUS (AM) – Em meio às reclamações sobre o aumento nas contas de energia e às cobranças por melhorias no fornecimento, a Âmbar Energia passou a recomendar aos consumidores do Amazonas medidas para reduzir o consumo, como abrir janelas e usar ventiladores em vez do ar-condicionado, sempre que possível. A concessionária, que assumiu a distribuição de energia no Estado em abril deste ano, é alvo de apuração da Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) e foi convocada pela Câmara Municipal de Manaus (CMM) para prestar esclarecimentos sobre os valores das faturas e a qualidade do serviço.
Nas redes sociais, a concessionária orienta os consumidores a aproveitar a ventilação e a iluminação naturais, desligar equipamentos quando não estiverem em uso e adotar medidas para diminuir o consumo dentro de casa. Entre as recomendações estão evitar abrir a geladeira com frequência, conferir as borrachas de vedação, utilizar lâmpadas de LED e desligar a televisão quando ninguém estiver assistindo. A empresa também sugere o uso da função de desligamento automático dos aparelhos durante a noite.
Cards publicados pela Âmbar Energia nas redes sociais apresentam orientações aos consumidores para reduzir o consumo de energia elétrica no Amazonas.
A Âmbar também orienta os consumidores a realizar inspeções periódicas nas instalações elétricas das residências. Segundo a empresa, a revisão preventiva pode ajudar a identificar problemas, aumentar a segurança e melhorar a eficiência da rede interna.
As orientações foram publicadas em meio às reclamações sobre os valores das contas de energia. Em agosto, consumidores relataram aumentos mesmo sem mudanças significativas na rotina das residências. Em um dos casos, um consumidor afirmou que a fatura passou de cerca de R$ 440, em agosto de 2025, para R$ 611 no mesmo mês de 2026.
A relação entre consumo e temperatura também passou a fazer parte das explicações apresentadas pela concessionária. Durante encontro com vereadores, o diretor-presidente da Âmbar Energia, João Pilla, afirmou que o maior uso de equipamentos elétricos em períodos de temperaturas elevadas pode aumentar o consumo e, consequentemente, impactar o valor das faturas.
Foi nesse contexto que as publicações da empresa provocaram reações entre os usuários nas redes sociais. “Um calor de 41° e vocês vêm com dica de ventilador. Quero ver se na sala do CEO de porcaria tem ventilador”, escreveu um internauta. Outro usuário ironizou as orientações diante das altas temperaturas no Amazonas: “Resumindo, morra de calor pois tem que ligar o ar-condicionado somente quando for necessário, e não beba água, pois abrir a geladeira estão gastando energia, fica a dica”.
As críticas também se concentraram nos valores cobrados nas faturas, um dos pontos questionados por órgãos de defesa do consumidor e pelo Legislativo municipal. “Após encarecer a nossa conta de energia agora vem com dicas?”, questionou um usuário. Em outro comentário, uma internauta classificou a situação como “absurdo” e afirmou: “Vocês não respeitam o povo amazonense”.
DPE-AM investiga
Diante das reclamações, a Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) instaurou uma apuração sobre as cobranças da Âmbar Energia. Segundo a instituição, houve aumento no número de consumidores que procuraram atendimento para relatar valores mais altos nas contas de energia.
Em 7 de agosto, a Defensoria Pública Especializada em Interesses Coletivos (DPEIC) encaminhou ofício à concessionária para solicitar esclarecimentos sobre as faturas. A empresa recebeu prazo de 48 horas para informar os motivos do aumento e apresentar dados que justificassem os valores cobrados.
À época, o titular da DPEIC, defensor público Carlos Almeida Filho, afirmou que a instituição ainda aguardava as informações da concessionária para avaliar a situação. “Essa é uma medida preliminar de apuração dos fatos, porque temos indícios de que pode haver uma irregularidade. No entanto, precisamos solicitar mais informações para compreender o quadro geral”, afirmou.
No ofício, a DPE-AM citou o Código de Defesa do Consumidor (CDC), que proíbe a elevação de preços de produtos e serviços sem justa causa. O documento também ressaltou que a prestação de serviços públicos por meio de concessão deve observar o princípio da modicidade tarifária, segundo o qual as tarifas devem ser razoáveis e compatíveis com o serviço prestado.
A instituição também alertou para os efeitos que uma elevação inesperada das faturas pode provocar entre consumidores em situação de vulnerabilidade econômica. Segundo a DPE-AM, o aumento pode contribuir para a inadimplência e elevar o risco de suspensão do fornecimento de energia elétrica, considerado um serviço essencial.
Ao tratar das próximas etapas, Carlos Almeida Filho afirmou que a Defensoria aguardaria o posicionamento da concessionária antes de decidir sobre novas providências. “Assim que recebermos a resposta da empresa, poderemos adotar outras medidas para evitar que a população seja prejudicada por cobranças indevidas”, declarou.
Em 20 de agosto, a DPE-AM abriu um canal específico para receber reclamações de consumidores sobre o aumento nas contas de energia. A instituição passou a solicitar faturas referentes aos meses de junho, julho e agosto de 2025 e de 2026 para comparar os valores cobrados nos dois períodos.
CMM cobra respostas
As reclamações também chegaram à Câmara Municipal de Manaus (CMM), onde a concessionária foi questionada pelos vereadores. Em 24 de agosto, o diretor-presidente da Âmbar Energia, João Pilla, participou de uma oitiva na Casa, após requerimento do vereador Rodrigo Guedes (Republicanos). A discussão abordou os valores das faturas, o fornecimento de energia, a substituição de medidores, a modernização da rede e o atendimento aos consumidores.
Guedes questionou Pilla sobre o resultado financeiro da empresa desde o início da operação no Amazonas e perguntou qual era o lucro da concessionária. O executivo afirmou que a Âmbar ainda não registrou lucro e disse que a expectativa é “zerar o jogo” em cinco anos. Segundo Pilla, os investimentos realizados pela empresa terão reconhecimento nos próximos ciclos tarifários.
A substituição dos medidores também foi questionada pelos vereadores diante de relatos de consumidores que passaram a receber faturas mais altas. Pilla afirmou que mais da metade dos equipamentos instalados em Manaus tem mais de dez anos e que a troca é necessária porque aparelhos antigos podem apresentar erros de medição. Segundo ele, as inspeções realizadas pela concessionária também podem identificar irregularidades e resultar na atualização do consumo registrado.
Os vereadores também apresentaram reclamações de consumidores que relataram danos a eletrodomésticos após oscilações ou interrupções no fornecimento. Pilla afirmou que os casos devem ser registrados nos canais da empresa e que as solicitações consideradas procedentes podem resultar em ressarcimento.
A substituição dos cabos também entrou na discussão. O representante técnico da Âmbar, Raimundo, explicou que o cobre possui maior capacidade de condução elétrica, mas afirmou que a concessionária utiliza cabos de alumínio com bitola maior para compensar essa diferença. Segundo a empresa, a mudança integra o processo de modernização da rede.
Os medidores instalados em estruturas aéreas também foram alvo de questionamentos. Pilla afirmou que os equipamentos já existentes serão mantidos, mas disse que a Âmbar não pretende ampliar esse modelo. Segundo o executivo, a prioridade é avançar na instalação de medidores inteligentes.
Os cortes por inadimplência também foram abordados durante a oitiva. Pilla afirmou que o consumidor é comunicado antes da suspensão do fornecimento e recebe aviso e reaviso, conforme as regras do setor elétrico.
Variações ao consumo
Ao responder às reclamações sobre as faturas, Pilla negou que tenha ocorrido uma duplicação generalizada das contas de energia em Manaus. Segundo o executivo, parte das variações pode estar relacionada ao aumento do consumo, especialmente pelo maior uso de equipamentos elétricos em períodos de temperaturas elevadas. A concessionária também citou inspeções que identificam irregularidades e podem alterar o consumo considerado no faturamento.
Durante a oitiva, Pilla apresentou dados de consumo e afirmou que houve aumento de 394 para 433 entre junho e julho. Os números foram utilizados pela empresa para indicar o crescimento da demanda no período.
A explicação apresentada pela Âmbar, no entanto, não abrange individualmente os casos levados à CMM e à DPE-AM. As reclamações envolvem aumentos nos valores cobrados, cuja análise depende das respectivas faturas, do consumo registrado e dos componentes que integram a cobrança.
Sobre a qualidade do fornecimento, Pilla afirmou que as ocorrências emergenciais caíram 11% em 2026, na comparação com o ano anterior. A concessionária também apresentou indicadores que, segundo a empresa, apontam melhora na duração e na frequência das interrupções.
As informações foram apresentadas pela Âmbar durante a oitiva realizada na CMM, enquanto a DPE-AM mantém a apuração sobre as reclamações dos consumidores. A análise da Defensoria inclui a comparação de faturas de períodos equivalentes para verificar as diferenças relatadas nas cobranças.



