MANAUS (AM) – O sócio-administrador da empresa que assumiu a operação da roda-gigante instalada no Complexo Turístico da Ponta Negra, Zona Oeste de Manaus (AM), sem licitação, foi um dos principais líderes da campanha à reeleição do prefeito David Almeida (Avante) em 2024. A informação foi obtida com exclusividade pela CENARIUM com base em imagens e relatos de testemunhas que acompanharam o empresário Jean Marcos Praia Rocha, responsável legal pela Wheel Manaus J.P. Diversões Ltda., nos eventos de campanha do prefeito. A reportagem é da Revista CENARIUM.
Os registros mostram Jean Praia, que também atuava como professor de Zumba em Manaus, fazendo panfletagem e ensinando outros trabalhadores a entregar santinhos de David Almeida e do candidato dele a vereador, o tio Hudson Praia (Agir). Hudson é amigo de David e do vice-prefeito de Manaus, Renato Júnior (Avante), e, atualmente, possui um cargo na Prefeitura de Manaus.
Na imagem, o dono da roda gigante é fotografado durante um evento eleitoral de David Almeida no Centro de Manaus. “Como funciona a panfletagem no Centro”, diz a legenda da foto. A camisa que o empresário usa faz, também, menção ao candidato a vereador Hudson Praia, com número de urna 36090
Em outra imagem, Jean Praia postou uma imagem no Instagram com a foto dele e a arte do “santinho” de David Almeida, durante a campanha eleitoral de 2024, com menções para os seguidores dele votarem no então candidato à reeleição. As fotos com as menções da campanha eleitoral do prefeito foram apagadas após as polêmicas envolvendo a empresa dele e a Prefeitura de Manaus.
Colegas de campanha de Jean Praia informaram à CENARIUM que ele foi apresentado ao prefeito David Almeida e ao vice-prefeito Renato Júnior pelo tio dele e candidato a vereador, Hudson Praia. Na época, o objetivo da união entre Hudson e David Almeida era a captação de votos por meio de um projeto social de dança de Zumba, em Manaus, no qual participam centenas de famílias. Hudson ficou conhecido por ser dançarino da banda Carrapicho.
“O Hudson tem um projeto de Zumba na cidade e prometeu votos de centenas de eleitores para o David Almeida na eleição de 2024. O sobrinho dele, Jean Praia [dono da roda-gigante], era professor de Zumba nesse projeto e foi líder de campanha do prefeito para angariar votos”, explicou um participante do projeto, que não quis ter o nome divulgado.
Outra colega de campanha eleitoral de Jean Praia, entrevistado pela CENARIUM, afirmou que ele coordenava uma equipe de campanha para David Almeida na área do bairro São José, na Zona Leste, onde ele atuava como professor de Zumba por mais de cinco anos com o apoio do tio Hudson Praia.
“Todos que trabalharam com ele [Jean Praia] na campanha de David Almeida ficaram surpresos como ele foi beneficiado com a contratação da empresa dele sem licitação. Depois, percebemos que poderia ser pela amizade do prefeito com o tio Hudson Praia”, afirmou a ex-funcionária de campanha do prefeito David Almeida.
Hudson Praia está lotado como assessor técnico do Fundo Municipal de Cultura (FMC), da Prefeitura de Manaus e recebe R$ 4,8 mil mensais. Procurado pela reportagem, Hudson não respondeu.
Suspeita de ilegalidade
A empresa de Jean Praia que opera a roda-gigante na Ponta Negra foi registrada em 18 de novembro de 2025, dois dias antes da inauguração da atração turística na Ponta negra. Antes, a Prefeitura de Manaus havia informado que a operação do espaço seria realizada pela Nene Park, nome fantasia da H. M. Diversões Ltda.
A ausência de documentos públicos impede a verificação de requisitos previstos na legislação que rege contratos e concessões administrativas. Em casos de cessão de uso de bem público com exploração econômica, a Lei nº 14.133/2021 estabelece a necessidade de procedimento formal – como licitação, chamamento público ou justificativa de dispensa – acompanhado de publicação oficial que descreva o objeto, o prazo, as condições, as obrigações e as contrapartidas envolvidas.
Quando a gestão de um equipamento público é transferida a uma empresa recém-criada, sem divulgação prévia, sem documentação acessível e após mudança repentina do operador inicialmente anunciado, ficam ausentes elementos essenciais para a verificação do cumprimento dos princípios da publicidade, impessoalidade, transparência e motivação administrativa. Na ausência de publicação oficial, não é possível exercer controle social nem aferir se houve favorecimento, conflito de interesses ou descumprimento dos critérios de seleção previstos na legislação.
O comprovante de inscrição e situação cadastral da Wheel Manaus, que indica como endereço do empreendimento a Avenida Autaz Mirim, nº 6.798, no bairro São José Operário, Zona Leste de Manaus, também aponta indícios de irregularidades. Em visita ao local nesta terça-feira, a CENARIUM verificou que o endereço corresponde à área onde funciona o parque de diversões Nenê Park.
Em nota, a Prefeitura de Manaus informou que a roda-gigante foi instalada a partir de Termo de Cessão de Uso Oneroso com a empresa H. M. Diversões Ltda., existente desde 2011. O nome fantasia deste empreendimento é Nenê Park. Os sócios são Harley Belarmino de Souza e Maria Gabriela Michael Patino. Veja documento do empreendimento:
Roda-gigante e polêmicas
Desde a abertura da estrutura, conduzida pela gestão de David Almeida, a roda-gigante tem provocado críticas do público e mobilizado até ações judiciais. A roda-gigante registrou uma pane dois dias após a inauguração envolvendo energia elétrica clandestina, denunciada pelo vereador Amaury Gomes (União). O prefeito negou a ilegalidade e disse que o município quem paga a energia da roda-gigante. Não há documentos sobre a parceria custeada pela Prefeitura de Manaus.
O preço do ingresso também virou alvo de debate. O ingresso custa R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia), o que representaria R$ 120 para uma família de dois adultos e duas crianças. Nas redes sociais, a cobrança gerou indignação. “Deveria era ser de graça porque eles compram essas coisas com nosso dinheiro”, reclamou uma internauta no X. Outro usuário afirmou: “Impressionante como uma roda-gigante expõe a desigualdade em Manaus.”
Segundo cálculos da reportagem, a cada 13 mil entradas inteiras, a roda-gigante fatura mais de meio milhão de reais. A Prefeitura de Manaus afirma que a operação está amparada por Termo de Cessão de Uso Oneroso, mas nenhum documento foi encontrado nos meios oficiais – nem contrato, nem pareceres, nem laudos de segurança, nem justificativas de escolha.
Ação civil pública
Diante das controvérsias, uma ação popular apresentada pelo vereador de Manaus Coronel Rosses (PL) solicita que a Justiça ordene a paralisação imediata da roda-gigante instalada no Complexo Turístico da Ponta Negra. A medida foi proposta contra o Município de Manaus, o prefeito David Almeida (Avante), o Implurb e a empresa Wheel Manaus J.P. Diversões Ltda.
Na petição, o vereador argumenta que o equipamento foi instalado sem um processo licitatório transparente, sem a publicação de termo de permissão ou concessão no Diário Oficial ou no Portal da Transparência e sem comprovação de requisitos técnicos e de segurança.
O documento também aponta possível afronta aos princípios da administração pública estabelecidos no artigo 37 da Constituição Federal e destaca riscos ao patrimônio público e à integridade dos usuários.
Entre os questionamentos levantados, o autor menciona que a empresa responsável pela operação foi criada em 18 de novembro de 2025, apenas dois dias antes do anúncio da atração, o que, segundo a ação, suscita dúvidas sobre sua capacidade técnica e financeira para administrar um equipamento desse porte.
Veja o documento:
VIA REVISTA CENARIUM



