Um “negócio de família“, a política do Amazonas tem se tornado cada vez mais em um espaço ocupado por membros de um mesmo grupo familiar. Pais, filhos, irmãos e até primos se revezam no poder, seja no Executivo municipal, estadual e federal.
Na Câmara dos Deputados, na recente história política amazonense, a reportagem cita o três vezes eleito deputado federal, Sabino Castelo Branco lançou a candidatura do filho, Reizo Castelo Branco, sendo o terceiro mais votado em 2008. Reizo conseguiu se reeleger, somente uma vez, e encerrou seu mandato em 2016. Em 2020, tentou novamente voltar para a Câmara Municipal de Manaus (CMM), mas não conseguiu votos suficientes. Em vez disso, conseguiu uma nomeação como diretor do Departamento de Difusão Cultural, na Manauscult.
A última aparição de Sabino foi justamente em 2020, ano de eleição municipal. Ele se manteve recluso após sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC), quando ainda era deputado federal. Internado, licenciou-se do mandato para tratamento de saúde por diversas vezes. Sabino ganhou notoriedade ao comandar um programa policial em uma TV local.
Outro político bastante conhecido por explorar temas caros para a sociedade, como a violência e o tráfico de drogas, o ex-deputado Wallace Souza, falecido em 2010, ganhou fama e a transformou em ótimos dividendos eleitorais. Oito anos após a morte, o filho Willace Oliveira se candidatou para deputado federal e perdeu. Apesar da derrota, deu continuidade ao programa de televisão no mesmo viés de seu pai. Em 2020, tentou o cargo de vereador, mas não foi eleito, ficando apenas como suplente.
Porém, há casos em que a figura política consegue manter a permanência do nome da família em destaque. É o caso de Ricardo Nicolau (PSD). O empresário é filho do médico Luiz Fernando Nicolau, deputado estadual por dois mandatos e federal por três vezes.
Luiz Fernando, que foi presidente da Aleam e secretário estadual de Saúde, morreu aos 74 anos, em 2020, ano em que o então deputado estadual, Ricardo Nicolau, disputou as eleições para prefeito de Manaus.
O sucessor, Ricardo Nicolau, foi deputado estadual por cinco mandatos e, como o pai, foi presidente da Aleam de 2011 a 2012, aos 35 anos – o mais jovem da história até então.

Em 2016, Luiz Fernando Nicolau ganhou da Aleam o Título de Cidadão do Amazonas (Foto: Aleam/Divulgação)
Além de Ricardo, Luiz Fernando emplacou outro filho na política amazonense, Hiram Nicolau, que foi eleito duas vezes para a Câmara Municipal de Manaus, nas legislaturas de 2013 a 2016 e de 2017 a 2020.
Em 2021, ao não receberem apoio do PSD para disputar o governo estadual, os irmãos Nicolau deixaram o partido e se filiaram ao Solidariedade. Hiram resolveu abdicar da candidatura para ajudar o irmão na campanha, porém, Ricardo Nicolau obteve 11,37% dos votos válidos e não foi para o segundo turno.
Eleito três vezes vereador, em 2012, 2016 e 2020, David Reis (Avante) — assim como o pai, Sabá Reis, também assumiu cargos em secretarias e, por duas vezes, foi eleito presidente da Câmara Municipal de Manaus (CMM). Já Sabá Reis foi eleito uma vez deputado estadual e, por sete vezes, assumiu uma cadeira na CMM.
Mas nem todos conseguem emplacar um herdeiro político. Henrique Oliveira, que no auge da sua carreira política conseguiu se eleger vice-governador na chapa com José Melo, em 2015, também foi vereador e deputado federal — abrindo mão deste último mandato para assumir como vice-governador. Por duas vezes, Henrique tentou eleger, sem sucesso, o filho Henrique Oliveira Filho, em 2018, para deputado estadual e, em 2022, para deputado federal.
Perpetuando o nome da família na política
O envolvimento de filhos de políticos configurando uma forma de perpetuar o nome da família nos espaços políticos não é de hoje. No caso da família “do Carmo Ribeiro”, houve uma sequência de três gerações na política amazonenses, que iniciou com Arthur Virgílio do Carmo Ribeiro Filho, em seguida, Arthur Virgílio do Carmo Ribeiro Neto e, mais recente, Arthur Bisneto.
Arthur Neto foi quem mais alcançou destaque, chegando a ser ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República durante o governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Diplomata, Neto foi eleito deputado federal por dois mandatos, senador e, por três vezes, prefeito da capital amazonense.
Seguindo os passos do avô e do pai, Arthur Bisneto foi eleito deputado estadual e federal. Porém, não logrou êxito em permanecer com mandato na Câmara Federal.

Filho e pai – Arthur Bisneto e Arthur Neto (Foto: Semcom/Divulgação)
Após entrar em atrito no próprio partido que ajudou a fundar, Arthur Neto foi destituído pela direção nacional do PSDB, da presidência do partido no Amazonas. Sem filiação, após 35 anos no partido tucano, Arthur busca se manter conectado com os eleitores por meio das redes sociais.
Já o filho — Bisneto —, que também deve deixar o PSDB, tem se aproximado do prefeito David Almeida (Avante), indicando que pode estar disponível para alçar voo em nova direção.
Se o que dizem, que filho repete o comportamento dos pais, Diego Afonso (UB) terá muito trabalho pela frente. É que o pai, Adjunto Afonso (UB), aos 71 anos, já acumula seis mandatos como deputado estadual nos anos de 1998, 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022, enquanto o vereador exerce o segundo mandato como vereador.
Os rostos vão mudando, mas os sobrenomes vão permanecendo no poder. Belarmino Lins (PP), eleito sete vezes deputado estadual, anunciou aposentadoria da política, deixando espaço para o filho, Dr. George Lins, que, em 2022, disputou e foi eleito deputado estadual, continuando o legado da família Lins na política amazonense.
Mas para quem pensava que Belão se aposentaria da política, enganou-se. Aos 77 anos, o ex-deputado foi nomeado para o cargo de superintendente-adjunto de operações da Zona Franca de Manaus (Suframa).

(Foto: Aleam/Divulgação)
No ano passado, Belarmino, que é natural de Fonte Boa, disse que era hora de passar o bastão para que George continuidade ao legado do pai no interior do estado.
Legado “Pinheiro”
Do interior, também surgem protagonistas que conseguiram formar, a partir da própria família, um grupo político, com tentáculos no município, na Assembleia e até mesmo no Congresso Nacional. Nem mesmo a cassação do mandato do então prefeito Adail Pinheiro, em 2014, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por abuso de poder, pôde quebrar o vínculo forte do clã Pinheiro.
Pelo contrário — Adail conseguiu emplacar dois filhos em mandatos eletivos, mantendo a dinastia política dos Pinheiros. Adail Filho foi eleito prefeito na chapa composta pela irmã, Mayara Pinheiro, como vice-prefeita de Coari em 2016. Em 2018, Mayara foi a mais votada no estado para a Aleam e reeleita em 2022.

Nesse meio tempo, o irmão se reelegeu prefeito, tendo como vice o primo Keitton Pinheiro em 2020.Porém, em 2021, o TSE cassou o mandato do filho de Adail. Conforme o TRE, ele não poderia comandar a prefeitura porque esse seria o terceiro mandato consecutivo de um integrante da mesma família. Adail filho foi eleito em 2022 para deputado federal.
Renovação para romper dinastias
Para o analista político Carlos Santiago, o fato de o Brasil carregar muito forte a cultura do patrimonialismo dificulta muito a renovação dos quadros políticos e quase perpetuam famílias no poder.
“Nos partidos políticos, os exemplos são numerosos de famílias que controlam as siglas partidárias. No Amazonas e no Brasil, no parlamento estadual, há exemplos do avô que foi presidente da Assembleia [Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam)], depois o pai – e recentemente o neto. Essas dinastias, esses grupos, estão dentro da máquina pública em cargos estratégicos, a exemplo também de mandatos cassados de pai e filho para cargos diferentes. Ainda, a ida do pai para um órgão público, deixando a vaga de deputado para o filho”, avalia o sociólogo.
Conforme Santiago, esse modelo de falta de renovação que está nos partidos, nas instituições, e mesmo nos cargos eletivos amparados pelo voto popular; também tem reflexo em instituintes da sociedade civil, como entidades profissionais e até instituição e associações patrimoniais.
“O Brasil e o Amazonas precisam se livrar dessa cultura do patrimonialismo, precisa buscar renovação de quadro, rompendo com dinastias impregnadas nas máquinas públicas — mas cabe, principalmente ao eleitor, buscar uma renovação de fato, de costume, muito mais que apenas uma renovação do velho pelo novo”, disse.
Segundo o sociólogo, caso não aconteça uma renovação, de fato, os cargos políticos eletivos e o controle de instituições, da sociedade civil, continuarão nas mãos de grupos que se profissionalizaram na política e na condução de entidades patronais e sindicais.
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