MANAUS (AM) – O empresário Alcir Queiroga Teixeira Júnior citou, em depoimento à Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), nomes de integrantes da gestão do prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), no âmbito da investigação que apura a atuação de um núcleo de agentes públicos ligado ao Comando Vermelho. Entre os mencionados estão o vice-prefeito Renato Júnior (Avante) e a primeira-dama da capital, Izabelle Fontenelle, de acordo com documento.
Ao delegado Marcelo Martins, Alcir Queiroga afirmou que a assessora do prefeito David Almeida, Anabela Cardoso Freitas, presa na sexta-feira, 20, pagava em espécie as passagens aéreas emitidas para pessoas ligadas à cúpula da Prefeitura de Manaus e a familiares do chefe do Executivo municipal. No depoimento, o empresário também citou o nome do ex-subsecretário de Obras, Valcerlan Ferreira Cruz, que atuou como ordenador de despesas da Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf).
Veja quem são citados:
- David Almeida – Prefeito de Manaus;
- Izabelle Fontenelle – Primeira-dama da capital
- Renato Júnior – vice prefeito de Manaus (sua família também é citada);
- Kassio – Identificado como sobrinho de David Almeida;
- Uma mulher não identificada – companheira de Kassio;
- Valcerlan Ferreira – Ex-subsecretário de Obras
Alcir Queiroga declarou que Anabela comprava passagens aéreas para parentes dos citados que, segundo ele, “orbitavam no entorno dessas pessoas”. O empresário afirmou ainda que a assessora pagava com cartão de crédito quando as passagens eram destinadas a ela própria, mas efetuava pagamentos em notas de R$ 100 e R$ 50, “sendo que, às vezes, havia notas de R$ 20”, quando os bilhetes eram para o prefeito de Manaus, David Almeida, e pessoas de sua confiança.
Às autoridades, o preso afirmou que os pagamentos em espécie, feitos com cédulas, atendiam a um “pedido de David Almeida e demais pessoas da Prefeitura de Manaus”. Segundo o depoimento, a maioria das passagens foi emitida para “viagens de lazer”, em sua maior parte intermediadas por Anabela Cardoso. Ela foi presa na última sexta-feira, sob suspeita de integrar o núcleo de agentes públicos do Comando Vermelho no Amazonas.
O empresário destacou, também, que desconhece a origem do dinheiro e declarou não saber se os valores teriam origem no “tráfico de drogas ou em “desvio de verbas públicas”. Ele questionou o montante de R$ 1,3 milhão vinculado à assessora, afirmando que “não sabe de onde o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) tirou esse valor”.

Um Relatório de Inteligência Financeira aponta o repasse do montante. A informação consta em um documento de quase 300 páginas, que embasou a decretação da prisão de 24 pessoas suspeitas de integrar a organização criminosa de tráfico de drogas e crimes correlatos, “em coautoria com traficantes do Amazonas e outras unidades da federação, e com participação de agentes públicos”.
A transferência do montante tornou-se um dos principais eixos da investigação da PC-AM na Operação Erga Omnes. O valor, considerado atípico e incompatível com a renda da investigadora, é apontado como elemento central para apuração de possível lavagem de dinheiro vinculada a uma organização criminosa. De acordo com o relatório produzido pelo 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP), a movimentação financeira não apresentou justificativa formal identificável.
A apuração incluiu consultas a cartórios de Manaus para verificar eventual compra ou venda de imóvel que pudesse explicar a transação, mas nenhuma negociação foi encontrada. As autoridades afirmam que a ausência de lastro documental reforçou os indícios de que o montante teria sido utilizado para ocultação de ativos. O valor foi transferido a Alcir, identificado como proprietário da empresa Revoar Turismo, classificada na investigação como empresa fantasma.
Empresa fantasma e vínculo institucional
No documento, os investigadores da Polícia Civil sustentam que a ausência de lastro documental reforçou os indícios de que o montante teria sido utilizado para ocultação de ativos. O valor foi transferido a Alcir, identificado como proprietário da empresa Revoar Turismo, classificada na investigação como empresa fantasma.
Segundo o relatório, diligências apontaram que a Revoar Turismo não possuía sede física real nem presença ativa na internet. Consultas às companhias aéreas GOL e Latam indicaram que não houve emissão de passagens entre 2021 e 2025, período analisado na investigação.
Anabela é Investigadora da Polícia Civil, mas está cedida à Prefeitura de Manaus no momento das apurações. Segundo o relatório, ela exercia a função de Coordenadora do Gabinete Pessoal do prefeito David Almeida (Avante), cargo de confiança considerado estratégico dentro do Executivo municipal.
O relatório menciona ainda que a servidora já havia sido cedida anteriormente à Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam), como mostra a foto do documento abaixo, o que segundo os investigadores, aponta sua atuação em diferentes núcleos da administração pública estadual. Para a PC, o trânsito institucional amplia a relevância da análise sobre a movimentação financeira identificada.



